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A maldição da abundância: por que o petróleo não salvou a Venezuela
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A Venezuela é um dos países mais ricos e mais pobres do mundo ao mesmo tempo. Rica em recursos, dona das maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, com cerca de 303 bilhões de barris e pobre em resultados sociais, com mais de 50% da população em níveis muito graves de pobreza.
O PIB per capita é comparado a países como Nicarágua e Honduras (que não possuem o mesmo potencial econômico natural) e a inflação ainda acima de 40% ao ano além de indicadores sociais abaixo da média latino-americana. Essa contradição não é acidental, ela é estrutural.
Durante décadas, o petróleo foi apresentado como a grande solução nacional. Em teoria, fazia sentido: a preços médios internacionais, o valor bruto dessas reservas ultrapassa US$ 18 trilhões, um montante capaz de financiar gerações de desenvolvimento. Na prática, porém, o petróleo não construiu uma economia diversificada, resiliente ou inclusiva. Pelo contrário: tornou-se o eixo de uma dependência que fragilizou o país.
A economia venezuelana se organizou quase exclusivamente em torno da renda petroleira. Agricultura, indústria, tecnologia e serviços ficaram em segundo plano. Esse fenômeno já foi classificado e é conhecido por economistas como a “maldição dos recursos naturais” porque cria um ciclo perverso: enquanto o petróleo gera dólares fáceis, outros setores deixam de receber investimentos, inovação e atenção do Estado. Quando o preço do barril cai ou a produção falha, o país inteiro pode entrar em colapso.
Com Infraestrutura sucateada, perda de quadros técnicos e ausência de reinvestimento essa realidade corroeu a capacidade produtiva. O mercado internacional de petróleo, dominado por grandes petroleiras, interesses geopolíticos e cadeias financeiras globais, nunca foi um ambiente neutro. A Venezuela, com petróleo pesado e de alto custo de extração, depende de tecnologia, financiamento e parcerias internacionais. Quando essas relações se deterioram, o petróleo deixa de ser riqueza e vira peso.
Em muitos momentos, o país vendeu petróleo em condições desfavoráveis, antecipando receitas, oferecendo descontos elevados ou trocando barris por apoio político e financeiro. Esse processo, ao longo do tempo, “sangrou” a economia, comprometendo o fluxo de caixa futuro e reduzindo a capacidade de investimento interno.
Houve ainda uma espécie de acelerador da crise. As sanções econômicas internacionais, sobretudo a partir de 2010, não criaram a crise, mas a aprofundaram. Elas restringiram acesso a mercados, bancos, tecnologia e seguros marítimos. Para um país cuja principal fonte de receita depende da exportação de petróleo, isso teve efeito direto e devastador.
Com menos dólares entrando, o Estado perdeu capacidade de importar alimentos, medicamentos e insumos básicos. O resultado foi hiperinflação, colapso cambial e deterioração acelerada do padrão de vida. Hoje, mesmo com a inflação fora do pico histórico, ela segue muito acima da média regional.
Outro ponto importantíssimo: Nenhuma análise honesta pode ignorar o fator interno. A gestão dos recursos petroleiros foi marcada por uso político da renda, gastos correntes sem lastro produtivo, ausência de fundos sólidos e níveis elevados de corrupção. Recursos extraordinários não foram convertidos em infraestrutura, educação de qualidade ou diversificação econômica sustentável.
O caso venezuelano não é apenas uma tragédia nacional; é um alerta importante para economias que apostam tudo em uma única commodity. Essa prática é como caminhar sobre gelo fino. A abundância sem governança, diversificação e visão de longo prazo cria vulnerabilidade, não prosperidade.
A Venezuela mostra que riqueza natural não substitui instituições fortes, nem planejamento econômico, nem transparência. Mostra também que mercados internacionais e sanções podem agravar crises, mas dificilmente destroem sozinhos uma economia: elas apenas expõem fragilidades já existentes.
O petróleo venezuelano continua ali, enterrado, vasto e valioso. O que falta não é recurso, é modelo. Sem diversificação produtiva, sem gestão técnica, sem reinvestimento consistente e sem estabilidade institucional, até a maior riqueza do mundo pode se transformar em um fardo.
A Venezuela ensina, a um custo altíssimo, que desenvolvimento não nasce da abundância, mas da forma como ela é administrada. E esse é um risco que nenhuma economia pode se dar ao luxo de ignorar.
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Júlio Prado é jornalista e analista político, com atuação em Palmas. Foi secretário de Comunicação do Município, função na qual esteve à frente da estratégia institucional, da relação com a imprensa e da gestão da comunicação pública. Ao longo de sua trajetória, consolidou-se como articulista, com análises voltadas à política, economia e gestão pública, contribuindo para o debate sobre desenvolvimento e políticas públicas no Tocantins.
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O Ano de 2025 em Palmas e no Tocantins: Crise, Instabilidade e a Força dos Pequenos Negócios
O ano de 2025 ficará marcado na história de Palmas e do Tocantins como um período de fortes turbulências políticas, de um clima de instabilidade que mexeu com a rotina das instituições públicas e do dia a dia da população. Ao mesmo tempo em que o cenário político enfrentava uma de suas maiores crises, o setor produtivo, especialmente os pequenos negócios, mostrou capacidade de reagir, crescer e gerar oportunidades.
O início de 2025 trouxe expectativas positivas para Palmas e para o Tocantins. Projetos importantes estavam em andamento, programas municipais e estaduais avançavam, e a economia dava sinais de estabilização após um ciclo de incertezas nacionais. Entretanto, no decorrer do ano, o cenário começou a mudar.
Decisões judiciais afastaram tanto o prefeito da capital quanto o governador do Estado, gerando um vácuo de liderança e abrindo espaço para que os vices assumissem funções estratégicas em um momento crítico. Foi aí que os acontecimentos tomaram rumos inesperados.
A notícia dos afastamentos caiu como um raio sobre a população. Para muitos, foi algo repentino e difícil de compreender. Sem uma comunicação clara e em meio a especulações, a sensação de incerteza aumentou. Com o afastamento do prefeito de Palmas, Eduardo Siqueira Campos, quem assumiu foi o vice Carlos Velozo, que, de forma apressada, começou a promover mudanças internas. Em poucos dias, quadros técnicos foram substituídos, programas foram interrompidos e contratos passaram por revisões sem planejamento adequado.
A prefeitura, que vinha mantendo um ritmo de trabalho considerado estável, passou a enfrentar atrasos em serviços essenciais, dificuldades de coordenação e uma ruptura no diálogo que existia com lideranças comunitárias e empresariais. O impacto foi sentido rapidamente nos bairros, nos pequenos comércios e até no funcionamento da máquina administrativa.
A situação no Governo do Estado não foi diferente. O vice-governador que assumiu o cargo começou uma série de articulações que, com o passar dos dias, mostraram-se precipitadas. Secretarias foram reorganizadas sem critérios técnicos claros, projetos estaduais ficaram comprometidos e decisões tomadas de última hora resultaram em desconfiança entre servidores, prefeitos do interior e setores produtivos.
O Estado, que já vem sendo manchete nacional devido a afastamento de governadores, viu a situação se agravar. Licitações ficaram suspensas, repasses atrasaram e o clima de incerteza contaminou prefeituras e empresas que dependiam de previsibilidade para manter suas atividades. Tanto na capital quanto no Estado, a falta de planejamento e a pressa em consolidar um novo modelo de gestão, pelos vices, provocaram efeitos imediatos. Esse período passou a ser conhecido por muitos como um curto, mas intenso, “caos administrativo”.
Projetos sociais, programas de incentivo econômico, ações na área de educação e iniciativas voltadas ao empreendedorismo foram afetados. Equipes técnicas que vinham acompanhando políticas estruturantes foram desmobilizadas, e o conhecimento acumulado foi momentaneamente perdido. A mudança repentina nas lideranças públicas trouxe impactos perceptíveis no clima social. População, servidores e representantes do setor privado passaram a adotar uma postura mais cautelosa, aguardando desdobramentos e evitando assumir novos compromissos.
Após semanas de debates jurídicos, recursos e manifestações públicas, a justiça determinou o retorno do prefeito e do governador aos respectivos cargos. Essa decisão representou um momento de alívio para grande parte da população, que via na estabilidade administrativa um caminho para reorganizar o que havia sido interrompido.
Com o retorno ao cargo, o prefeito precisou agir com rapidez para retomar programas paralisados, reorganizar equipes e reconstruir pontes com diferentes setores da sociedade. A prioridade passou a ser estabilizar o funcionamento da prefeitura e garantir que serviços essenciais voltassem ao seu ritmo normal. Medidas emergenciais foram adotadas, e, aos poucos, a cidade começou a sentir os efeitos positivos da retomada do controle administrativo.
O governador também enfrentou o desafio maior de desfazer decisões tomadas sem critérios técnicos e recolocar o governo estadual nos trilhos. Foi necessário restabelecer equipes que haviam sido substituídas e reabrir canais de diálogo com lideranças políticas, empresariais e comunitárias. A palavra que marca esse período é reconstrução, não apenas de políticas públicas, mas da confiança da população e da credibilidade institucional.
Enquanto o cenário político enfrentava turbulências, um outro movimento ganhava força no Tocantins: o crescimento dos pequenos negócios. Mesmo diante das incertezas, pequenas empresas, microempreendedores individuais, produtores rurais e prestadores de serviços mostraram uma capacidade surpreendente de adaptação. Os pequenos negócios são, historicamente, a espinha dorsal da economia tocantinense. Em 2025, esse papel ficou ainda mais evidente. As MPEs geraram empregos em diversas cidades, fortaleceram a economia local, mantiveram renda circulando mesmo em períodos de instabilidade e mostraram criatividade e capacidade de reinvenção. Muitos empreendedores investiram em novas tecnologias, ampliaram a presença digital e buscaram capacitações para melhorar a gestão dos seus negócios. Municípios como Araguaína, Gurupi, Paraíso do Tocantins e Porto Nacional viram seus pequenos negócios contribuírem de maneira decisiva para a economia local. Lojas, pequenos comércios, produtores rurais, serviços urbanos e negócios inovadores ajudaram a manter a dinâmica de trabalho e renda, mesmo quando o ambiente político parecia desfavorável.
Entidades como o Sebrae desempenharam um papel essencial nesse processo. Programas de capacitação, consultorias e iniciativas de incentivo ao empreendedorismo ajudaram milhares de empreendedores a se reinventar durante o ano. Esse trabalho colaborou para que pequenas empresas aumentassem sua produtividade, se adequassem a exigências legais, adotassem práticas de inovação e encontrassem novos mercados, incluindo mercado internacional.
Apesar de todas as dificuldades políticas, o Tocantins encerra 2025 com um saldo importante na geração de emprego. Grande parte dessas vagas veio justamente do empreendedorismo e a retomada administrativa após a volta dos gestores ajudou a estabilizar políticas de desenvolvimento, e os empreendedores responderam com otimismo. Os pequenos negócios foram responsáveis por estimular cadeias produtivas como comércio, serviços, turismo local e agricultura familiar. Cada pequeno negócio representa uma história de resiliência e em muitos casos, famílias inteiras encontraram no empreendedorismo uma forma de superar dificuldades e contribuir para o crescimento das suas comunidades.
O ano de 2025 deixa lições importantes para gestores públicos, empreendedores e para a sociedade como um todo. Crises políticas impactam diretamente a vida das pessoas. A falta de planejamento e as decisões precipitadas deixam rastros que podem comprometer serviços públicos e a economia. Mesmo diante de instabilidade, os pequenos negócios mostraram que são um dos pilares do desenvolvimento do Tocantins e investir em capacitação, inovação e gestão é fundamental para que esse setor continue crescendo.
Experiências vividas em 2025 mostram que mudanças precipitadas podem custar caro. Uma gestão sólida depende de preparo técnico, diálogo e responsabilidade. Esse ano não será esquecido tão cedo por quem vive em Palmas ou em qualquer cidade do Tocantins. Foi um período marcado pela instabilidade política, por decisões controversas e por momentos de verdadeira preocupação. Porém, também foi um ano que revelou o caráter resiliente da população tocantinense e a importância dos pequenos negócios para manter viva a economia e gerar esperança. A crise deixou marcas, mas também ensinou que, quando a gestão pública está alinhada com as necessidades da sociedade e quando o empreendedorismo local é valorizado, o desenvolvimento se torna possível, mesmo nos momentos mais desafiadores.
2025 foi um ano difícil, mas também foi um ano de aprendizado, de reinvenção e de avanço para quem acredita no poder transformador da boa gestão e do empreendedorismo local. Um Feliz Natal e um Feliz Ano a todos tocantinenses e que Deus abençoe nosso Estado.
Bruno Vieira é Professor, pós-graduado em Gestão do Desenvolvimento Humano nas Organizações, Gerente da Unidade de Articulação e Competitividade – UAC do Sebrae Tocantins, Vice-Presidente da Região Norte da Confederação Nacional das Micro e Pequenas Empresas e Empreendedores Individuais – CONAMPE e Presidente do Conselho de Inovação e Desenvolvimento Econômico de Palmas – CIDEP